Verbos modais na escrita de universitários de língua inglesa: Uma perspectiva de corpus more

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Viana, V. (2009). Verbos modais na escrita de universitários de língua inglesa: Uma perspectiva de corpus. In S. Zyngier, V. Viana & J. Jandre (Eds.), Linguagem, criatividade e ensino: Abordagens empíricas e interdisciplinares (pp. 49-77). Rio de Janeiro: Publit.

Verbos modais na escrita de universitarios de lingua inglesa: uma perspectiva de corpus1 Vander Viana (QUB) ABSTRACT: Although modais have been central to language analysis, very few studies have focused on the written production of Brazilian advanced EFL students by means of corpus analysis. The present study contrasts the use of modal verbs in the writing of Brazilian EFL undergraduates and that of American and British university students whose first language is English. As far as the data is concerned, two corpora are probed with the help of a computer tool. The research corpus consists of a sample of the Brazilian Portuguese Sub-corpus of the International Corpus of Learner English (Br-ICLE), while the reference corpus corresponds to a section of the Louvain Corpus of Native English Essays (LOCNESS). Following a statistical approach to data treatment, the study focuses on the frequency of central modal verbs (BIBER et al, 1999), namely, 'can', 'could', 'may', 'might', 'must', 'shall', 'should', 'will' and 'would'. The results indicate that Brazilian EFL undergraduates use significantly fewer modal verbs than their American and British counterparts. It is then argued that this reduced frequency of modais in Brazilian writing may make it sound more direct and assertive when compared to that of speakers of English as a first language. From a general perspective, the present study may contribute to a reassessment of English teaching in the Brazilian setting. 1) Introduce) O presente estudo surge da motivacao de estudar a escrita em ingles de universitarios brasileiros de Letras de forma a verificar 1 Esse capltulo teve sua origem na dissertacao de mestrado de Viana (2008), realizada na Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro sob a orienta- cao da Profa. Dra. Lucia Pacheco de Oliveira. 49 como essa se aproxima ou se distancia da mesma producao carac- teristica dos falantes de ingles como primeira Hngua (IL1). Ao in- ves de basear a escolha do foco especifico do estudo em intiricoes do pesquisador ou na literatura publicada, que sao as praticas mais comuns, optou-se por seguir a orientacao da Hngmstica de corpus, adotando-se um caminho direcionado pelo proprio corpus de es- tudo (cf. corpus-driven studies de TOGNINI-BONELI, 2001). Para tanto, recorreu-se a uma comparacao de dois corpora: um que representava a producao escrita de cunho argumentative de alunos universitarios de IL1 (Eouvain Corpus of Native English Essays - LOCNESS) e outro maior que proveria o padrao de comparacao para a Hngua inglesa contemporanea em sua variedade britanica2 (British National Corpus - BNC). O contraste entre corpora foi realizado por meio de uma ferramenta que extrai as palavras-chaves, isto e, as palavras mais (e tambem menos) recorrentemente empregadas em um corpus de estudo quando comparado a outro considerado como de referenda. Isso significa que a ferramenta indica que palavras sao caracteristicas da redacao argumentativa em Hngua inglesa quando comparada ao uso que e feito da mesma de uma forma geral (assim como o inverso tambem e ressaltado). Os resultados apontaram para a existencia de verbos modais na Hsta de palavras-chave. Em ordem de- crescente de importancia, surgiram 'cannot,'can't, 'would, 'should, 'won't, 'couldn't, 'will, 'wouldn't, 'shouldn't, 'can' e 'must como caracteristicos da producao escrita dos alunos investigados, representada no LOCNESS. Por outro lado, 'shall apareceu como um verbo modal chave no uso geral da lingua inglesa representado no BNC. Pelo fato de os verbos modais terem se revelado centrais no corpus referente a producao escrita dos falantes de IL1, tracou-se como meta a verificacao de seu respectivo uso por brasileiros estudando a Hngua inglesa. Isso vai ao encontro de uma das lacunas 2 A escolha pelo ingles britanico deve-se a disponibilidade de um corpus previ- amente compilado — neste caso, o BNC. 50 identificadas na literatura ja que, como indica Aijmer (2002, p. 56), "a modalidade e somente um exemplo de uma area da linguagem de aprendiz que nao foi previamente bem descrita e onde corpora de aprendiz podem contribuir".3 Nao ha muitos estudos com base na linguistica de corpus que enfoquem esse traco linguistico a par- tir da analise da escrita de estudantes (cf. Secao 4), especialmente quando sao considerados os falantes brasileiros de ingles como lingua estrangeira (ELE). Assim sendo, a pergunta que norteia o estudo e de que forma se comparam a escolha e o uso de verbos modais por brasileiros, por um lado, e por americanos e britanicos, por outro, quando a escrita argumentativa na universidade e enfocada. A pesquisa e aqui descrita em seis secoes alem da introducao. Inicialmente, ressalta-se o papel da linguistica de corpus enquanto forma de abordagem a linguagem. A seguir, o foco de atencao se volta a atividade de escrita no ambito universitario, apontando como ela perpassa a vida de estudantes nesse nivel de ensino. Posterior- mente, os verbos modais sao discutidos, dando-se enfase aos estu- dos que verificam o emprego deles em redacoes produzidas por discentes de diferentes nacionalidades a partir de uma perspectiva contrastiva. Os procedimentos metodologicos sao apresentados na Secao 5, que contempla nao somente a etapa de coleta de dados, mas tambem a de analise. A discussao dos resultados encontrados encontra espaco na secao seguinte na qual comparacoes sao tracadas entre o uso de verbos modais por falantes brasileiros de ILE e por falantes de IL1. Finalmente, algumas consideracoes sobre as hipo- teses que podem ser levantadas para a explicacao dos resultados sao apresentadas na ultima secao assim como os encaminhamen- tos a partir desse estudo. O potencial pedagogico dos resultados aqui obtidos e tambem considerado na secao final. 3 Tradu9ao livre para o portugues: "Modality is just one example of an area of learner language which has not previously been well described and where computer learner corpora can make a contribution". 51 2) Linguistica de corpus A area conhecida como lingmstica de corpus pode ser identificada, inicialmente, como um ramo da linguistica que se dedica ao estudo da linguagem em uso. Essa investigacao, como o proprio nome da area aponta, e realizada por meio de um corpus, que aqui assume uma definicao mais estreita: uma compilacao eletronica e criteriosa de (amostras de) textos que ocorrem natu- ralmente com o objetivo de representar uma dada lingua ou algum de seus aspectos mais pontuais de forma a possibilitar uma analise linguistica previamente delineada. Um ponto central na linguistica de corpus relaciona-se com o tamanho dos corpora a serem investigados em uma pesquisa.4 Apesar da relevancia atribuida a questao, nao ha um criterio defini- do acerca do que seria o tamanho minimamente aceitavel de um corpus para que ele seja representative (cf. PEARSON, 1998; TOGNINI-BONELLI, 2001; BOWKER & PEARSON, 2002). Nesse sentido, a explicacao fornecida por Bowker & Pearson (2002, p. 45-46) parece ser apropriada: Infelizmente, nao ha regras consistentes e seguras que pos- sam ser seguidas para determinar o tamanho ideal de um corpus. Em vez disto, deve-se tomar essa decisao com base em fatores como as necessidades do projeto, a disponibilida- de de dados e a quantidade de tempo disponivel. E muito importante, no entanto, nao pressupor que maior e sempre melhor. Pode-se obter mais informacoes uteis de um corpus pequeno, mas bem planejado, do que de um maior, mas nao personalizado para atender as necessidades.5 4 A relevancia desse topico na linguistica de corpus pode ser exemplificada, por exemplo, com a existencia de uma entrada para 'tamanho' ('.f/^') em um glossario dedicado a esta area (BAKER, HARDIE & MCENERY, 2006). 5 Traducao livre do seguinte fragmento: "Unfortunately, there are no hard and fast rules that can be followed to determine the ideal size of a corpus. Instead, 52 No caso de corpora como os envolvidos nessa pesquisa, Granger (1998b, p. 10) ressalta que "pode-se dificilmente esperar que corpora de aprendiz alcancem os tamanhos gigantes dos corpora nativos".6 Alem do uso de corpora, Conrad (2002) aponta tres outras caracteristicas dos estudos com base na lingmstica de corpus. Uma dessas e o uso de ferramentas computacionais na linguistica de corpus, que nao e uma possibilidade, mas uma necessidade real. Os computadores talvez nao se constituam mais em um fator expHcito e identificavel na pesquisa com base em corpus. Eles atingi- ram um estagio de "normalizacao" nos termos de Bax (2003, p. 23),7 ou seja, a tecnologia passa a ser invisivel. De fato, nao e possivel conceber, no atual estagio do avanco tecnologico, um analista que opte por fazer uma analise manual de seu corpus por menor que ele seja, como era comum no passado. Parece ser, entao, nao mais necessario destacar o computador como elemento 'especial' da pesquisa na area.8 A outra caracteristica relaciona-se ao exame empirico dos pa- droes observados. Essa questao parece tanto decorrer do uso de corpora como ao mesmo tempo exigir o emprego dos mesmos em pesquisas na area. Em ultima instancia, a analise empirica confere maior objetividade aos estudos baseados em corpora, ja que os you will have to make this decision based on factors such as the needs of your project, the availability of data and the amount of time that you have. It is very important, however, not to assume that bigger is always better. You may find that you can get more useful information from a corpus that is small but well designed than from one that is larger but is not customized to meet your needs". 6 Traducao livre do seguinte fragmento: "one can hardly expect learner corpora to reach the gigantic sizes of native corpora". 7 Apesar de o autor discorrer sobre o ensino de Hnguas mediado por computador, o termo pode ser aqui aplicado ao uso de tecnologias na pesquisa em lingiiistica de corpus. 8 Isso, no entanto, nao implica assumir que nao se deve descrever o procedi- mento metodologico de analise em detalhe, que e uma condicao necessaria de uma pesquisa cientifica. 53 resultados decorrem direta ou indiretamente da observacao da lin- guagem em uso. A partir dessa perspectiva, a identificacao dos padroes de uso em uma dada lingua e um dos pontos centrais na linguistica de corpus, dando-se enfase especial ao papel da co-selecao exercido por um determinado cotexto. De fato, de acordo com Conrad (2002, p. 77), "os pesquisadores se voltam para os padroes na linguagem, determi- nando o que e tfpico e o que e diferente em dadas circunstancias".9 Ainda a respeito das caracteristicas da pesquisa em linguistica de corpus, Conrad (2002) destaca o uso de procedimentos anaHticos de ordem quantitativa e qualitativa. E verdade que investigacoes baseadas em corpora sao geralmente identificadas como sendo quantitativas por terem o seu ponto de partida geralmente fixado em dados de freqiiencia ou seus derivados. No entanto, esse e apenas um primeiro momento ja que os numeros por si so nao auxiliam na compreensao do uso da linguagem (CONRAD, 2002). Segundo Baker (2006, p. 18), ja que os dados obtidos a partir de corpus nao se auto-inter- pretam, precisamos ter em mente que cabe ao pesquisador fazer sentido dos padroes de linguagem encontrados em um corpus, postulando razoes para a sua existencia ou procurando por evidencias adicionais para sustentar hipoteses.10 Em suma, apesar de todo o auxilio do computador na prospeccao de dados linguisticos, cabe a ferramenta somente o trabalho laborioso e repetitivo de identificacao, ordena^ao, classi- fica^ao, entre outros. Compete ao pesquisador adequar a tarefa aos 9 Tradu9ao livre do seguinte fragmento: "Researchers are concerned with the patterns in language, determining what is typical and unusual in given circumstances". 10 Traducao livre do seguinte fragmento: "we need to bear in mind that because corpus data does not interpret itself, it is up to the researcher to make sense of the patterns of language which are found within a corpus, postulating reasons for their existence or looking for further evidence to support hypotheses". 54 seus objetivos e interpretar os resultados encontrados a partir de evidencias claras. 3) Escrita na universidade A atividade de escrita e inerente ao fazer humano em socieda- des letradas modernas. Porem, a sua influencia vai muito mais alem do que o contexto cotidiano que se pode imaginar inicialmente: o conhecimento sobre a adequacao da escrita mostra-se relevante para a determinacao das oportunidades que sao oferecidas a uma pessoa ao longo de sua vida (HYLAND, 2002, p. 1). Talvez por esse motivo os estudos sobre escrita configurem-se como uma fonte de investigacao na linguistica aplicada ha mais de 50 anos, sendo ate hoje uma area em expansao (GRABE & KAPLAN, 1996; HYLAND, 2002). No caso da pesquisa sobre a escrita de falantes de L2 ouLE, nota-se, no entanto, que o historico e mais recente, tendo se iniciado entre as decadas de 60 e 70 nos Estados Unidos e no Reino Unido (GRABE & KAPLAN, 1996, p. 27) devido ao crescente numero de alunos internacionais em universidades desses paises. Ao analisar o papel da escrita no ambito universitario, nota-se que os recem-universitarios precisam adequar o seu discurso de duas formas: (a) mostrando que possuem maior dorrnnio acerca dos assuntos tratados e (b) lidando e expressando esse conheci- mento de uma forma diferente com a qual nao estao acostumados (LEA, 1999). Afinal, segundo English (1999, p. 17), "todos os alunos, sejam estrangeiros ou naturais, tern que adquirir novos discursos a fim de adaptar-se a comunidade academica".11 A preponderancia da escrita no ensino terciario esta ligada tam- bem ao fato de ser esta uma forma de avaliacao (JONES, 1999). Uma vez que o desempenho academico dos alunos e julgado pelo 11 Tradu9ao livre do seguinte fragmento: "All students, whether 'overseas' or 'home' status have to acquire new discourses in order to fit into the academic community". 55 conteudo que expressam em seus textos escritos, as notas que lhes sao conferidas acabam por constituir o perfil discente dentro da ins- tituicao de ensino e funcionam como indices de sucesso ou fracasso. No ensino universitario, a redacao12 academica desponta como genero textual importante para a avaliacao dos alunos (JONES, TURNER & STREET, 1999). Nesse sentido, Turner (1999, p. 154) afirma que "apesar da crescente diversidade de tipos textuais admitidos no arsenal da avaliacao academica de acordo com a ex- tensao de cursos, a redacao permanece como um procedimento de avaliacao proeminente na educacao superior britanica".13 A situacao, por exemplo, nao se mostra diferente nos Estados Unidos (cf. DAVIDSON &TOMIC, 1999). Ter dommio efetivo da escrita revela-se uma tarefa de dificil resolucao tanto para falantes de ingles como primeira lingua (IL1) como para aqueles que a tern como segunda lingua (IL2) ou lingua estrangeira (ILE) (ENGLISH, 1999). Pode-se, contudo, notar uma diferenca entre essas duas populacoes. Por ja estarem inseridos na cultura local, dominarem a lingua inglesa e saberem como funcio- na o sistema educacional de uma forma geral, os alunos britanicos que ingressam em universidades em seus paises de origem, por exemplo, enfrentam um unico desafio: a adaptacao a um novo ambiente de estudo no qual a agenda se revela menos explicita quando comparada ao segmento de ensino anterior (JONES, 1999). Assim sendo, faz-se necessario que esses alunos se conscientizem rapidamente das exigencias que sao feitas nessas instituicoes de ensino e entendam como eles podem interagir com as mesmas. No tocante aos estudantes estrangeiros, alem de terem de lidar com as situacoes semelhantes as que sao apresentadas aos estudantes 12 Aqui se trata da traducao para a palavra 'essaf em ingles. 13 Tradu9ao livre do seguinte fragmento: "Despite the growing diversity of text types admitted to the arsenal of academic assessment in line with the range of courses of study, the essay remains a prominent assessment procedure in British higher education". 56 falantes de IL1, precisam se adaptar aos padroes educacionais e culturais, que podem diferir completamente dos de seus paises de origem. Precisam tambem expressar suas ideias e conhecimento em uma lingua estrangeira. Com relacao aos problemas que os alunos enfrentam para conseguir realizar uma redacao academica bem-sucedida, o que possivelmente falta aos alunos e saber como se apropriar das mais diversas ideias as quais eles sao expostos. Eles precisam processa- las adequadamente de forma a garantir coerencia e coesao (cf. GRABE & KAPLAN, 1996). Apesar de as inadequacoes na producao escrita de alunos uni- versitarios ja terem sido apontadas, o ensino academico parece nao ter sido sensibilizado. Na verdade, Jones (1999) chega a afirmar que o processo de escrita e negligenciado no ensino superior, nao se reconhecendo a complexidade de tal atividade e a dificuldade que a mesma representa para os alunos. De forma similar, Gay, Jones & Jones (1999) reforcam que deve ser dada maior atencao aos problemas desse tipo de escrita no ensino universitario. No entanto, em vez de se melhorar o ensino, o que se percebe, de acordo com English (1999), e um vazio pedagogico.14 O conhe- cimento da escrita nao e discutido, ensinado ou apresentado em salas de aula, sendo tornado como impHcito, nao-problematico ou parte integrante do "senso comum" (LILLIS, 1999, p. 127). Tal pratica gera, na verdade, uma confusao no ensino a qual Lillis (1999, p. 127) denomina de "pratica institucional do misterio", que acaba por inibir a participacao efetiva dos alunos no contexto universitario. O misterio se relaciona as convencoes impHcitas da escrita que se 14 English (1999), no entanto, afirma haver alguns casos de ensino expKcito, sendo que o foco recai nas convencoes do discurso academico a serem seguidas. De acordo com a autora, nao basta ensinar um modelo pronto: e preciso deixar expKcito como as conven9oes e as formas deste discurso podem ser apropriadas pelo escritor de modo que ele possa expressar individualmente seus significados, possibilitando uma maior autonomia na escrita. 57 constituem em um enigma que os alunos devem resolver por conta propria. Apesar das controversias que possam ser levantadas a respeito do panorama atual do ensino da escrita na universidade, parece haver uma convergencia acerca da importancia de os alunos serem aceitos nessa nova comunidade da qual eles fazem parte (JONES, 1999, p. 40). Nesse sentido, o que seria preciso para que os alunos se tornem membros efetivos (em vez de perifericos) e que eles compreendam e se apropriem das praticas de escrita, o que corresponderia a um aprendizado bem-sucedido (LEA, 1999). 4) Verbos modais Parece haver um consenso entre lingiiistas a respeito da centralidade dos verbos modais como recursos comunicativos da lingua inglesa (MCCARTHY, 1999; AIJMER, 2002). Tal relevancia e possivelmente espelhada no tratamento que esses verbos rece- bem de diferentes abordagens gramaticais (cf. HALLIDAY, 1994 [1985]; QUIRK et al., 1997 [1985]; BIBER et al., 1999). Na presente pesquisa, adota-se a descricao gramatical de Biber et al. (1999), uma vez que essa e a proposta mais abrangente de descricao da referida lingua com base em corpus. Nessa perspecti- va, os tipos de verbos que expressam sentido modal sao tres: (a) verbos auxiliares modais centrais, (b) verbos auxiliares marginais e (c) semi-modais. Como toda pesquisa necessariamente implica um recorte ou selecao para que a mesma seja factivel, optou-se aqui por investigar os verbos auxiliares modais centrais15 - a saber 'caff, 'could, 'maj\ 'might', 'must', 'shall', 'should', 'wilf e 'would - ja que seis deles apare- ceram na lista de palavras-chave como caracteristicos da producao 15 Com relacao a terminologia empregada no presente estudo, opta-se por se referir a esse grupo como verbos modais ou simplesmente modais por economia de linguagem. 58 argumentativa escrita de falantes de IL1 (cf. Secao 1). Alem disso, os verbos auxiliares modais centrais sao apontados como os mais recorrentemente utilizados em lingua inglesa (BIBER et al., 1999). Esse grupo de verbos possui algumas caracteristicas em comum: (a) sao invariaveis, (b) funcionam como auxiliares, (c) precedem o adverbio de negacao 'nof, (d) sao antepostos ao sujeito em casos de frases interrogativas,16 (e) sao seguidos por um verbo no infinitivo sem 'to' e (f) geralmente nao podem co-ocorrer. Os verbos modais em foco aqui podem ser agrupados de duas formas como proposto por Biber et al. (1999). Uma primeira pos- sibilidade seria referente a nocao de tempo na qual haveria dois grupos: (a) verbos que nao podem indicar o passado ('can', 'may', 'shall e 'wilt) e (b) verbos que podem fazer referenda ao passado ('could', 'mighf, 'should e 'would), a unica excecao aqui seria em relacao ao modal 'must\17 A segunda taxonomia proposta esta relacionada ao significado que e expresso pelos modais: (a) permissao, possibilidade ouhabilidade (caff, 'could, 'maf e 'might), (b) obrigacao ou necessidade (must, 'should), e (c) volicao ou predicao (mil, 'would e 'shall). Quanto a natureza dos estudos acerca do uso de verbos modais, interesses na literatura da area sao os mais variados. Aqui o foco recai, mais especificamente, nas investigacoes contrastivas do uso de verbos modais por falantes de IL1 e de ILE quando eles se expressam por meio da escrita. Ao analisar a expressao de duvida e certeza em redacoes em ingles de alunos cantoneses e britanicos, Hyland & Milton (1997) notam que e o grupo de falantes de ILE que faz uso mais recorren- te de verbos modais. Em relacao a expressao de modalidade 16 Biber et al. (1999, p. 483) falam apenas em perguntas cuja resposta inclui sim ou nao, mas a afkmacao e aqui generalizada para todos os tipos de perguntas diretas. 17 Observa-se, mais uma vez, que a classificacao nao necessariamente indica que 'could', 'mighf, 'should e 'would se referem exclusivamente ao passado, podendo ser empregados para expressar, por exemplo, polidez ou hipoteses. 59 epistemica, apesar de ambos os grupos parecerem empregar esses recursos de forma semelhante, os alunos de origem cantonesa empregam 'wilt e 'may1 mais freqiientemente ao passo que os estu- dantes britanicos que optam por 'would. Com relacao a diferenca de uso no par 'will? e 'would, os autores afirmam que os falantes de ILE por eles investigados optam por expressar de forma mais confidente suas predicoes enquanto os falantes britanicos de IL1 lancam mao de uma forma provisoria. Em termos de classes se- manticas, o estudo indica que a escrita em ILE de cantoneses e marcada pela expressao de certeza, o que totaliza um pouco mais de 50% dos recursos selecionados para a analise, enquanto a escri- ta dos alunos de IL1 equilibra o uso de expressao de certeza e probabilidade. Dessa forma, parece que as redacoes analisadas de alunos cantoneses assumiriam um torn mais afirmativo, nao abrindo espaco para discordancia das proposicoes apresentadas. Trabalhando com a mesma famflia de corpora empregada nes- se estudo, Ringbom (1998) faz um levantamento de freqiiencias vocabulares na escrita de alunos de ILE de sete nacionalidades (ale- maes, espanhois, finlandeses, fino-suecos, franceses, holandeses e suecos) em comparacao as redacoes do LOCNESS (dados ameri- canos e britanicos). Na lista das 110 formas mais freqiientes nos oito corpora, figuram cinco dos verbos modais a serem aqui analisados, a saber, 'will?, 'would, 'can\ 'should e 'could em ordem decrescente de freqiiencia no LOCNESS. No caso de 'will', os franceses - assim como os cantoneses no estudo de Hyland & Milton (1997) - apresentam um uso maior; os espanhois, finlandeses, holandeses e alemaes apresentam um menor uso; e os fino-suecos e suecos pa- recem ter um emprego semelhante aos falantes de IL1 apesar de ser um pouco menor. Em relacao ao verbo modal 'would, todos os grupos nacionais o utilizam em menor escala - a semelhanca dos resultados de Hyland & Milton (1997) -, sendo que finlandeses e fino-suecos se aproximam do que e observado no LOCNESS. Quanto ao modal 'can\ todos os falantes de ILE investigados por 60 Ringbom (1998) utilizam esse verbo modal em demasia, sendo que os universitarios de origem francesa, sueca e alema parecem se apro- ximar da freqiiencia de uso observada para os falantes de ILL Um novo panorama e delineado no caso de 'should, havendo maior uso por parte de alemaes, franceses e finlandeses enquanto espanhois, fino-suecos, holandeses e suecos o utilizam em menor quantidade quando comparados aos americanos e britanicos. Por fim, nota-se que 'could e o que apresenta a distribuicao mais similar dos verbos listados. Somente os espanhois o empregam ligeiramente mais recorrentemente do que americanos e britanicos. Os estudantes finlandeses registram a mesma freqiiencia da observada para falantes de IL1 ao passo que franceses, fino-suecos, suecos, holandeses e alemaes empregam 'could em proporcao menor.18 Com o foco no contraste entre os modais encontrados na es- crita de aprendizes suecos de ILE e de estudantes de IL1, Aijmer (2002) tambem faz uso dos corpora do projeto ICLE (dados suecos, franceses e alemaes) e do LOCNESS.19 Os resultados indicam que, quando os onze verbos modais estudados ('can', 'could, 'have (got) to\ 'maj\ 'might', 'must', 'ought to\ 'shall, 'should, 'will? e 'would') sao consi- derados globalmente, os estudantes suecos os empregam de forma significativamente mais freqiiente do que os falantes de ILL Em termos de expressao de possibilidade, os quatro verbos modais em tela (ca?f, 'could, 'might e 'may) sao mais recorrentemente empregados por suecos, franceses e alemaes. No entanto, os grupos nacionais apresentam padroes distintos: (a) suecos utilizam 'mighf em maior proporcao; (b) franceses usam 'may' e 'mighf em maior escala, e (c) alemaes empregam 'can\ 'could e 'mighf de forma mais acentuada, sendo todas as diferencas significativas. 18 Deve-se ressaltar, no entanto, que apesar de indicar as diferencas entre os corpora por meio de uma extensa tabela, Ringbom (1998) nao as interpreta de forma exaustiva, fazendo a analise de apenas alguns poucos resultados. 19 Todos, porem, sao representados de forma fracionada, contendo um pouco mais de 52.000 palavras. 61 Ao contrastar o estudo de Aijmer (2002) com o de Ringbom (1998) alguns resultados inesperados aparecem. Em relacao aos suecos, Ringbom (1998) mostra que esse grupo nacional utiliza 'could, 'should, 'will e 'would em menor quanndade do que falantes de IL1 ao passo que Aijmer (2002) indica haver uso maior e significativo dos tres ultimos modais. No tocante aos estudantes alemaes e Fran- ceses, Ringbom (1998) observa um reduzido emprego de 'could enquanto para Aijmer (2002) afirma que ambas as populacoes uti- lizam esse verbo modal mais freqiientemente, sendo a diferenca entre falantes de IL1 e de falantes alemaes de ILE significativa. De uma forma geral, os resultados dos estudos reportados in- dicam que alguns deles sao compartilhados por diferentes grupos nacionais de estudantes de ILE ao passo que outros sao empregos especificos de alunos provenientes de uma dada cultura. De forma a compreender um pouco do contexto brasileiro, o presente estudo busca investigar o uso de verbos modais na escrita de universitarios de ILE com o auxflio da linguistica de corpus. Os procedimentos metodologicos observados na pesquisa sao descritos a seguir. 5) Metodologia Para a presente pesquisa, dois corpora foram empregados: o de estudo, que representa a producao de alunos brasileiros de ILE, corresponde a um recorte do Br-ICLE {the Brazilian Portuguese Sub- corpus of ICLE); e o de referenda, contendo dados semelhantes de falantes de ingles de IL1, corresponde ao LOCNESS {Eouvain Corpus of Native English Essays).20 20 E verdade que a representacao nacional de brasileiros e de falantes america- nos e britanicos de IL1 demandaria uma coleta de dados em diferentes partes geograficas. Contudo, por uma questao de economia de linguagem, opta-se aqui por referir-se a esses grupos dessa forma ja que o contraste a ser realizado e, em ultima analise, entre essas populacoes. Nesse sentido, alinha-se a decisao de pesquisas realizadas na area (cf. GRANGER, 1998a). 62 O objetivo do projeto ICLE {International Corpus of Learner English), ao qual o Br-ICLE se liga, e compilar subcorpora de redacoes escritas em lingua inglesa por aprendizes de tal Hngua oriundos de diferentes nacionalidades. Apesar de os criterios de compilacao do corpus contemplarem redacoes, em ingles, de cunho literario e argumentative, nessa pesquisa optou-se por considerar somente o segundo tipo para que fosse possivel ter maior controle das variaveis envoividas na compilacao do corpus. Os temas foram fornecidos aos participantes a partir de uma lista previamente definida pelos coordenadores do ICLE, que contempla 14 possibilidades de topicos argumentativos. Quanto ao tamanho, as redacoes deveriam ter entre 500 e 1.000 palavras. Os participantes da pesquisa eram universitarios cursando, no mmimo, a metade final do curso de Letras.21 Tambem seguindo os criterios adotados pelo ICLE, aos alunos poderia ser dada a possi- bilidade de fazer a tarefa em casa ou em sala de aula com consulta a materials de referenda (dicionarios monolingues ou bilmgiies, gramaticas, paginas da Internet, livros, entre outros).22 Contudo, os estudantes foram solicitados a nao copiar partes de artigos ou livros sem indicar a devida referenda assim como tambem nao deveriam ter ajuda de terceiros.23 Alem da redacao propriamente dita, os alunos preencheram um questionario no qual eles registraram (a) caracteristicas da redacao, (b) condicoes de realizacao da mesma, (c) informacoes 21 Apesar de haver diferencas no tempo de integralizacao curricular de cada universidade, geralmente o curso de Letras tem duracao de quatro anos, o que significa que alunos a partir do quinto periodo foram convidados a contribuir para a pesquisa. 22 A escolha, no entanto, do local de realizacao da redacao nao dependia somente da disponibilidade dos alunos, mas tambem de seus professores. Em relacao ao uso de materials de consulta, a decisao ficava a cargo dos professores quando as redacoes eram realizadas em sala de aula. 23 Como se pode imaginar, entretanto, nao e possivel afirmar que a orientacao foi seguida no tocante as redacoes que nao foram escritas em sala de aula. 63 pessoais e familiares, (d) formacao educacional e utilizacao / exposi- cao a Hnguas estrangeiras, especialmente o ingles, e (e) autorizacao para que a redacao pudesse ser utilizada para fins cientificos. Com vistas a ter um maior controle do corpus estudado, utili- zou-se aqui um recorte do Br-ICLE. Nao foram consideradas as redacoes provenientes de outros estados que nao o Rio de Janeiro porque as condicoes nas quais as coletas foram realizadas nao eram conhecidas. Foram, entao, analisadas as redacoes coletadas em qua- tro universidades no Estado do Rio de Janeiro entre os anos de 2005 e 2007, com tamanho minimo de 300 palavras.24 Ao todo, o corpus de pesquisa contem 51.430 palavras e 5.455 palavras diferentes em 96 redacoes. O corpus de referenda - LOCNESS - foi compilado pelo mesmo grupo de pesquisa responsavel pela coordenacao do ICLE com o objetivo de permitir a comparacao entre os subcorpora des- se projeto com a escrita de falantes de ILL Em termos teoricos, a utilizacao do LOCNESS como corpus de referenda se alinha a diversos estudos realizados na area como, por exemplo, os reuni- dos em Granger (1998a). Tendo em mente a questao da comparabilidade e da consisten- cia metodologica, optou-se por utilizar uma parte criteriosa do LOCNESS. Assim sendo, foram consideradas apenas as redacoes de natureza argumentativas escritas por alunos universitarios ame- ricanos e britanicos que contivessem, no minimo, 300 palavras.25 Quanto as informacoes acerca das condicoes de producao das redacoes contempladas no LOCNESS, o material que documenta 24 Na pratica, reduziu-se o limite minimo de palavras estabelecido pelo projeto por dois motivos. Em primeiro lugar, tentou-se aproveitar ao maximo os da- dos coletados e gentilmente produzido pelos alunos que aceitaram participar da pesquisa. Alem disso, notou-se que as redacoes contidas no LOCNESS nem sempre continham o numero minimo de palavras estabelecido pelo projeto. 25 Isso implica o descarte de redacoes (a) produzidas por alunos do A-kvel, (b) com foco literario e/ou historico-expositivas, e (c) multiplas escritas por um unico participante. 64 o corpus nao contempla os questionarios de perfil de forma que nao e possivel tracar um panorama geral nesse sentido. Contudo, como o corpus foi compilado de forma que pudesse ser usado de forma comparativa aos do projeto ICLE, acredita-se que procedi- mentos similares de coleta tenham sido adotados. O recorte do LOCNESS aqui utilizado como corpus de refe- renda, totaliza 165.135 palavras e 11.146 palavras distintas em 201 textos. As redacoes foram coletadas em universidades americanas e britanicas26 entre os anos de 1991 e 1995.27 Todas as redacoes dos dois corpora foram devidamente ar- mazenadas em arquivos de texto sem formatacao de forma que pudessem ser lidos pela ferramenta computacional escolhida para a analise de dados. Os procedimentos para o tratamento dos textos seguiram as normas do projeto ICLE de forma a manter a unifor- mizacao proposta por seus coordenadores. Optou-se tambem por um sistema de nomeacao dos arquivos atraves do qual fosse possivel identificar caracteristicas a respeito da condicao de producao da redacao somente a partir da leitura dos nomes. Para a exploracao dos corpora, utilizou-se o WordSmith Tools (SCOTT, 1999), que processa textos com vistas a apresentar os mesmos dados neles contidos em uma forma distinta da linear que os caracteriza. Essa mudanca de formato, segundo Scott & Tribble (2006, p. 12), "serve para focar a atencao do leitor nao na mensa- 26 Diferentemente do desejado, os dados americanos correspondem a uma fatia muito maior do que os britanicos em vez de haver uma distribuicao equilibrada. 27 Ha, no entanto, uma parcela de dados cuja data de coleta nao e informada no material que documenta o LOCNESS. Apesar de haver uma diferenca de 16 anos entre a primeira coleta realizada no LOCNESS e a ultima coleta do Br-ICLE, supoe-se que o padrao de escrita argumentativa em lingua inglesa realizada no ambito universitario nao tenha sofrido mudan9as. Uma asser9ao definitiva, entretanto, so pode ser realizada apos um estudo longitudinal da escrita desses alunos. Nesse sentido, ressalta-se o Projeto LONGDALE (cf. http:// cecl.fltr.ucl.ac.be/LONGDALE.html), realizado pelo mesmo grupo de pesquisa do Projeto ICLE. 65 gem dos textos originais, mas na forma ou em outros aspectos das palavras individuals neles contidas".28 Apos o levantamento das freqiiencias de uso dos verbos modais em cada uma das redacoes por corpus, os resultados foram subme- tidos a analise estatistica da versao 15 do SPSS {StatisticalPackagefor the Social Sciences). No tocante as variaveis, considerou-se o corpus (de pesquisa ou de referenda) como variavel independente. Os valores relativos a freqiiencia normalizada por redacao de cada um dos nove verbos modais foram considerados como variaveis depen- dentes. Com esses valores puderam ser realizadas estatisncas descriti- vas - de forma a resumir os dados coletados - e inferenciais - com o objetivo de verificar a existencia de diferencas significativas entre os corpora contrastados. No segundo caso, foi empregado o teste AN OVA {Analysis of Variance), que verifica a variacao existente tanto dentro dos grupos como entre os grupos analisados (cf. BROWN, 1988; VAN PEER, HAKEMULDER & ZYNGIER, 2007). Os resultados encontrados na investigacao sao o foco da proxima secao. 6) Analise de dados Com o objetivo principal de comparar o uso de verbos modais na producao escrita em ingles de universitarios brasileiros de ILE e de universitarios americanos e britanicos de IL1, observou-se primeiramente como esses dois grupos empregam todos os nove verbos modais analisados de uma forma conjunta. Os resultados indicam que os participantes brasileiros empregam 1.783 modais por 100.000 itens enquanto os outros participantes, falantes de IL1, o fazem 2.094 vezes. Com a submissao dos valores encontrados por redacao ao teste estatistico ANOVA, pode-se afirmar que a diferenca encontrada e uma caracteristica diferenciadora entre os 28 Tradu9ao livre do seguinte fragmento: "serves to focus the reader's attention not on the message of the original texts but on the form or other aspects of the individual words in them". 66 corpora (p = 0,002).29 Portanto, ao escreverem suas redacoes em lingua inglesa, os universitarios brasileiros podem ter modalizado suas afirma- coes em menor escala do que seus pares falantes de IL1 ou podem te-lo feito de outras formas que nao atraves do uso de verbos modais. A ausencia significativa de verbos modais na escrita de brasilei- ros pode fazer com que a mesma torne-se mais direta e categorica como indicam os pares de exemplos a seguir, nos quais a forma brasileira precede a de falantes de IL1.30 BR-ICLE The most of victims are young people — 21 to 40 years old —, generally active on their jobs, they use to assume a great number of responsabilities and tasks, they are demanding with themselves, they do not accept mistakes, they are inclined to be worried about trivial problems. (068F5oSn) LOCNESS Their is no evidence, though, that the courts would accept this view. It would only hold true if the courts only recognised as valid that legislation which accords with our obligations under community law. (BSUR20-3) Br-ICLE Each one of these affects humanity and also the other forms of life, nevertheless, it seems that these collateral damages are expected and necessary to heal world. (086R5nSn) LOCNESS This would affect everyone in Britain, so it would probably be the most widely opposed move. (BSUR26-3) 29 Tendo em vista que os verbos modais no LOCNESS nao parecem ter uma distribuicao normal, aplicou-se tambem um teste nao-parametrico, que nao exige que se assuma a normalidade. O resultado obtido para o teste Mann- Whitney — significancia igual a 0,003 para a hipotese de duas caudas — tambem revela que a diferenca e significativa. 30 As redacoes do corpus nao foram corrigidas para que fosse posslvel preservar a forma expressao das populacoes investigadas. Dessa forma, os fragmentos apresentados no decorrer deste capltulo sao reproducoes ipsis fattens dos corpora. 67 Enquanto os falantes de IL1 optam por modalizar suas expres- soes com 'would nesses dois casos, os falantes brasileiros de ILE prefe- rem empregar uma forma mais categorica, respectivamente 'do not accept e 'affect?. Assim, os escritores parecem nao abrir espaco para discordancia de suas opinioes e posicionamentos por parte dos leitores. Se comparados com os de Aijmer (2002), os resultados encon- trados para os estudantes brasileiros claramente diferem daqueles caracteristicos da escrita de falantes suecos de ILE. Como aponta- do na Secao 4, os participates suecos utilizam os onze verbos modais investigados por Aijmer (2002) mais freqiientemente do que os falantes de IL1, diferenca essa que se revela significativa. Pode ser que esse seja um traco distintivo dos grupos nacionais estudados. Porem, isso nao pode ser afirmado visto que os proce- dimentos metodologicos das investigacoes diferem. Em um segundo estagio da analise, foi comparado o uso de cada verbo modal de forma individual por corpora com vistas ao levantamento de padroes de uso mais ou menos freqiiente pelos falantes brasileiros de ILE. Os resultados tanto para o Br-ICLE quanto para o LOCNESS sao apresentados na Figura 1 com fre- qiiencias normalizadas por 100.000 itens. Freqiiencia normalizada Br-ICLE ■ LOCNESS Figura 1: Comparado freqiiencial entre corpora por verbos modais 68 Os dois verbos modais mais freqiientes nas duas populacoes sao 'can' e 'would. O primeiro e mais freqiiente na escrita de estudantes brasileiros de ILE enquanto que 'would mostra-se ca- racteristico da escrita da populacao de IL1 estudada. Os exemplos abaixo ilustram de forma qualitativa as diferencas. Em cada par contrastado, o primeiro exemplo contendo 'car? e proveniente do Br-ICLE enquanto o outro, com o uso de 'would, e originario do LOCNESS. Br-ICLE It can be accepted if we consider how television can change people's opinion. (043E4fSn) LOCNESS Allowing alcohol consumption at age eighteen would change the way America viewed alcohol-use as a society. (USCU05- 3) Br-ICLE But you have to find room in yourself to dream and imagine, and many are those who just cannot do it very well. (041E4oSn) LOCNESS We now have ATM, automatic teller machines that are able to proceed with the same transactions as a teller would do. (UMIC03-1) Br-ICLE People can get important pieces of information from it. (043E4fSn) LOCNESS Hopefully they would get an answer explaining the new age movement and what its followers believe. (UMRQ05-1) Observa-se a preferencia por dois padroes distintos na escrita desses participantes: enquanto os falantes de ILE ressaltam o que 69 pode acontecer, os de IL1 preferem verbalizar conseqiiencias pro- visorias. Parece haver, portanto, menor assertividade em IL1 do que em ILE. Esse emprego fica especialmente mais visivel quando se observa um paragrafo completo, como o reproduzido abaixo, de um aluno de ILL One of the most important benefits of drug legalization is the fact that the prices of drugs would decrease and there would not be as much drug trade. <*>. This would'm fact make it more difficult for drug pushers to sell on the streets because <*>. Therefore, not as many people would be selling drugs because they would not be able to make a lot of money off of them. Na sua redacao, o participante prefere indicar suas predicoes e volicoes em termos de 'would na maioria das vezes. Essa escolha - em detrimento de 'wilt, por exemplo - reduz a forca das afirma- coes feitas. Ademais, percebe-se que o uso desse modal insere-se freqiientemente no contexto de uma situacao hipotetica (a legali- zacao das drogas), defendida pelo escritor. Ao contrastar cada um dos nove verbos modais, notam-se dois padroes na Figura 1. Ha um maior emprego por parte de brasilei- ros de 'caff e 'shall. Ja 'could, 'may\ 'might, 'must, 'should, 'wilt e 'would sao utilizados em menor escala na escrita de ILE quando comparada a de falantes de ILL As comparacoes apresentadas na Figura 1, no entanto, sao apenas de carater descritivo, ou seja, nada se pode afirmar sobre a possibilidade de generalizacao dos resulta- dos encontrados. Para tal finalidade, a freqiiencia de cada verbo modal por redacao foi submetida ao teste AN OVA. A significancia estatistica para cada uma das variaveis dependentes encontra-se na Tabela 1. 70 Tabela 1: Significancia estatistica Verbo modal P Can 0,270 0,308 0,401 0,645 0,139 0,193 0,619 0,013* 0,011* Could May Might Must Shall Should Will Would Considera-se aqui, assim como a pratica corrente na area de ciencias humanas, que um valor menor do que 0,05 indica uma diferenca significativa (cf. BROWN, 1988; VAN PEER, HAKEMULDER & ZYNGIER, 2007). Portanto, o valor de p aponta em que medida os resultados podem ser relacionados ao fator chance. Conclui-se, entao, que os contrastes significativos entre a escrita de falantes brasileiros de ILE e a de falantes de IL1 residem no emprego de 'would (p = 0,011) e 'will (p = 0,013).31 Em ambos os casos, como indicado na Figura 1, os brasileiros empregam tais modais em quantidade menor do que os falantes de IL1. A tendencia de um uso reduzido de 'would nao e exclusiva de brasileiros (cf. Secao 4). Esse e um traco comum as varias nacionali- dades estudadas por Ringbom (1998) - a saber, alemaes, espanhois, finlandeses, fino-suecos, franceses, holandeses e suecos32 - assim como aos cantoneses investigados por Hyland & Milton (1997). 31 Como a distribuicao dos nove verbos modais investigados por corpus pare- ce se desviar da normalidade, foi tambem realizado um teste nao-parametrico (Mann-Whitney) que indicou diferen9a significativa nao somente para 'mil e 'would', mas tambem para 'maf e 'must. 32 Aijmer (2002), no entanto, aponta de forma contraria que 'would seria utilizado em maior escala por suecos, diferenca que se mostra significativa em seu estudo. 71 Pode ser, entao, o caso de que essa caracteristica seja um ponto em comum entire as diversas populacoes nacionais de estudantes de ILE. Quanto ao uso de V///, o emprego em menor quantidade por falantes brasileiros de ILE insere-se em uma tendencia tambem observada para alemaes,33 espanhois, finlandeses e holandeses (RINGBOM, 1998). De certa forma, o mesmo padrao e observa- do para fino-suecos e suecos apesar de eles se aproximarem quantitativamente do emprego feito por falantes de ILL No en- tanto, no caso deste verbo modal, torna-se dificil estabelecer uma linha comum para todos os grupos haja vista que cantoneses (HYLAND & MILTON, 1997) e franceses (RINGBOM, 1998) apresentam uso maior do que o observado para os falantes de ILL O que deve ser ressaltado e que os dois verbos que apresentam diferencas significativas entire os corpora investigados servem a um mesmo propositi): o de indicar volicao / predicao. Alem disso, eles tambem podem ser empregados em um mesmo cotexto, a saber, o da indicacao de situacoes hipoteticas, especialmente com 'if. Os resultados apontam que ambas as caracterfsticas sao relegadas a um segundo piano por universitarios brasileiros. As provaveis causas para tais achados sao discutidas na proxima secao. 7) Considefa9oes finais A presente pesquisa buscou mapear como nove verbos modais em lingua inglesa sao empregados em redacoes argumentativas escritas por universitarios falantes de ILE de origem brasileira e falantes de IL1 de origens americana e britanica. Os resultados aqui encontrados, de uma forma mais geral, parecem indicar que a forma pela qual os participantes brasileiros expressam seus posicionamentos subjetivos difere daquela de falantes de IL1, quando ambos sao instados a realizar tarefas de cunho similar. 33 O mesmo resultado e encontrado por Aijmer (2002) no caso alemao, sendo a diferenca estatisticamente significativa. 72 Para explicar os resultados encontrados, duas hipoteses podem ser levantadas. Uma primeira relacionaria os mesmos ao ensino do ingles propriamente dito. Nesse caso, os alunos nao dominariam o uso adequado de verbos modais seja em termos mais gerais ou especificos. Com a relacao as dificuldades especificas, talvez os universitarios nao dominem os graus de certeza e diretividade ne- cessarios a esse genero em IL1 (cf. AIJMER, 2002), que Oliveira (1997, p. 239) opta por descrever como um "genero pre-academico". Uma segunda hipotese indicaria que as diferencas no uso de verbos modais estariam atreladas a questoes culturais. Em sendo o discurso "um espelho de nossos selves sempre fascinantes"34 (TRAPPES-LOMAX, 2004, p. 159), o emprego divergente dos verbos modais por brasileiros e americanos/britanicos seria apenas uma forma de verbalizar essas perspectivas diferentes de se ver e ver o mundo. Essas duas hipoteses geram dois encaminhamentos. Para verificar o possivel impacto do ensino na producao textual desses alunos brasileiros de ILE, seria interessante analisar materials pedagogicos e observar como os verbos modais sao apresentados aos alunos. No tocante a apresentacao de ""wilt e 'would, o ensino se pautaria por indicar exclusiva ou primordialmente seus usos na veiculacao de hipoteses, geralmente com 'if? Quais seriam os outros usos desses dois verbos modais e sera que a eles seria dedicado o mesmo tempo de pratica e fixacao? Estariam os usos menos freqiientes de 'mil e 'would', observados nao somente na producao escrita de brasi- leiros, relacionados ao emprego de materials didaticos preparados para um publico international? Para verificar se as diferencas de uso sao de base cultural, deve- se investigar como os estudantes brasileiros utilizam verbos modais em redacoes em sua lingua materna, contrastando com o uso desse recurso em ingles. Haveria uma correspondencia de expressao de 34 Tradu9ao livre do seguinte fragmento: "a mirror to our ever-fascinating selves". 73 assertividade tambem na escrita em portugues, que seria transferida para a lingua inglesa? De que forma se comparariam os usos de modais em portugues e em ingles quando os participantes sao solicitados a realizar tarefas similares? Nao obstante a explicacao para as diferencas aqui apontadas, cabe se pensar em como esses resultados podem ser transportados para a sala de aula. E fundamental que os alunos tomem conscien- cia dessas diferencas se quiserem seguir os padroes utilizados por falantes de IL1. Pode ser que isto seja necessario quando, por exemplo, da escrita de uma redacao no contexto de uma prova de proficiencia. Se o estudante deseja ser aprovado e aceito em uma universidade localizada em um pais de Hngua inglesa, e provavel que ele tenha que empregar os padroes linguisticos esperados dele. No entanto, fora de contextos nos quais haja uma coercao externa, o estudante pode optar por manter a sua forma de expressao idiossincratica (ou talvez cultural) na escrita. Em qualquer caso, e de extrema importancia que a escolha caiba ao estudante. Tal alvo so podera ser atingido quando ele estiver conscientizado das diferencas e dos fatores envolvidos no emprego de verbos modais. 8) Referencias AIJMER, K. Modality in advanced Swedish learners' written interlanguage. In: GRANGER, S.; HUNG, J.; PETCH- TYSON, S. (Eds.). Computer learner corpora, second language acquisition and foreign language teaching. Amsterdam: John Benjamins, 2002. p. 55-76. BAKER, P. Using corpora in discourse analysis. London / New York: Continuum, 2006. _; HARDIE, A.; MCENERY, T. A glossary of corpus linguistics. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2006. BAX, S. CALL: past, present and future. System, v. 31, p. 13-28, 2003. 74 BIBER, D. et al. Longman grammar of spoken and written English. 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